Segundo a Greenpeace, o gigante da «reciclagem» em Espanha mente.

  • Post author:
  • Post category:Filtros de agua

No filme «Gomorra», baseado no livro homónimo de Roberto Saviano, é narrado (entre outras coisas) como a máfia napolitana se encarregava da gestão do lixo e dos resíduos na região da Campânia. Utilizando aterros ilegais, enterrando o lixo em locais protegidos ou exportando-o sem qualquer controlo para outros países. Em suma, dedicava-se a varrer a «porcaria» para debaixo do tapete, até que tudo explodiu.

O que é que Roberto Saviano e a máfia napolitana têm a ver com a «reciclagem» de embalagens em Espanha? Continuem a ler.

Em plena crise na luta contra o plástico e os resíduos de embalagens descartáveis, devido a tudo o que estamos a viver com o coronavírus, a Greenpeace apresentou há alguns dias o seu relatório «A Ecoembes mente: Desmontando os enganos da gestão de resíduos de embalagens domésticas», para demonstrar que o seu sistema, implementado há mais de duas décadas, além de falhado, é apenas um grande negócio para empresas ligadas à Ecoembes.

Não é de admirar que, há algumas semanas, a Ecoembes esteja a recorrer a diferentes meios de comunicação generalistas e à publicidade nos mesmos, para limpar a sua imagem. Se ainda não reparaste, presta atenção: nunca na vida a Ecoembes tinha gasto tanto orçamento em campanhas publicitárias como agora.

Mas continuemos.

As empresas que comercializam embalagens de uso único, sejam elas: latas, garrafas, garrafões, sacos ou outros, nas quais imprimem o famoso «ponto verde», têm pago uma percentagem à Ecoembes para que esta recupere e recicle essa embalagem ou utensílio.

No entanto: a Ecoembes não recupera nem 25% do material a reciclar. Mas o que é, na realidade, a Ecoembes? Pois é, nem mais nem menos do que um monopólio formado por empresas, cuja maior parte do negócio se baseia na venda de produtos que são consumidos em embalagens descartáveis, ou seja: Coca-Cola, Nestlé, Henkel Ibérica, Pepsico… Não é difícil compreender que estas empresas mantenham a Ecoembes, utilizando-a como «empresa de fachada» para limpar a sua imagem.

As falhas do sistema da Ecoembes eram algo que todos temíamos há anos, mas agora a Greenpeace apresenta uma investigação superficial com este relatório. O que acontece realmente com as embalagens? A resposta não poderia ser pior: a maioria acaba em: incineradoras, aterros, queimadas, exportadas para a China e outros países asiáticos que se livram delas sem qualquer controlo.

Segundo o Ministério da Transição Ecológica, quase 50% dos plásticos espanhóis acabam em aterros, sem qualquer tentativa de os reciclar.

Entre os casos investigados pelo Greenpeace, há um que chama fortemente a atenção. Trata-se da empresa Utiel Recicla S.L., de Valência. Possui uma instalação não habilitada para armazenar plástico, mas há quatro anos acumula resíduos de oito empresas, sem fazer nada com eles, apenas acumulá-los. Esta empresa está certificada para a reciclagem pela… adivinhou, a Ecoembes.

A Ecoembes não só comete, segundo este relatório, este tipo de fraudes, como também age como uma verdadeira máfia, ao bloquear durante anos as alternativas ao seu sistema de reciclagem. Como seria o caso do sistema de devolução e reembolso de embalagens, método que países como a Alemanha, Finlândia, Noruega, Canadá ou Estónia têm vindo a utilizar com notável sucesso. Mas claro, com este sistema, os amigos da Pepsico, cuja grande parte dos lucros provém da fabricação de garrafas de água, latas, etc., ganhariam muito menos.

Como já abordámos noutras ocasiões neste blogue e nas nossas redes sociais, um dos negócios mais vergonhosamente poluentes e que a Ecoembes mais procura branquear é o da água engarrafada. Não menos embaraçosas são as simpáticas campanhas publicitárias de muitas das marcas de engarrafamento, que se apresentam como salvadoras do ambiente.

Nunca nos cansaremos de referir que, em Espanha, temos uma água da torneira excecional, em comparação com os restantes países que nos rodeiam. E se a água da sua zona for dura, tiver calcário ou considerar que sabe demasiado a cloro, pode sempre instalar um filtro de água na torneira.

Continuando com o estudo realizado pela Greenpeace, a organização apresentou-o às autoridades competentes para exigir: que a Ecoembes mude a sua atitude de promover falsas soluções. Que seja, de facto, uma associação sem fins lucrativos (uma vez que assim se apresenta); por conseguinte, o dinheiro arrecadado deve ser gerido pelas autarquias locais que recolhem as embalagens.

Ao governo: que estabeleça legislação para que coexistam os sistemas de reciclagem e os de devolução e reutilização de embalagens, como noutros países.

E a ti pedimos que sejas coerente. Que uses o mínimo possível de embalagens descartáveis. Diz NÃO às marcas que só utilizam este tipo de embalagens. E, claro, que bebas água, mas apenas da torneira 😉